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A Ciência Em Busca da Vida Eterna

por Dra. Marcela Scarpa

Saiba como cientistas estão buscando opções terapêuticas para prevenir e tratar o envelhecimento

A lista de doenças que a humanidade conseguiu combater é impressionante: poliomielite, febre tifóide, tétano, varíola e difteria foram quase completamente eliminadas do globo terrestre. Vacinas e medicamentos poderosos permitiram que nossa espécie lutasse contra as bactérias, parasitas e vírus perigosamente mortais.

Mas ao longo da história, nós, seres humanos, sofremos de uma condição intratável – o envelhecimento. À medida que envelhecemos, nossas células param de funcionar e entram em colapso, levando a condições como câncer, doenças cardíacas, artrite e doenças neuro-degenerativas. Juntas, as enfermidades relacionadas ao envelhecimento são responsáveis ??por aproximadamente 100.000 mortes por dia.

Mas será que é possível tratar o envelhecimento como uma doença?

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Alguns pesquisadores acreditam que a forma como o envelhecimento é visto pode estar errada. De acordo com eles, é preciso começar a debater o envelhecimento como uma doença – que pode ser prevenida e tratada.

Suas afirmações baseiam-se em descobertas recentes que sugerem que o envelhecimento biológico pode ser totalmente evitável e tratável. De uma perspectiva biológica, o corpo envelhece de maneiras diferentes, de acordo com fatores genéticos e ambientais. Minúsculos erros começam a surgir no DNA, fazendo com que as células desenvolvam falhas que, por sua vez, acumulam danos aos tecidos. Ao longo do tempo, a extensão dessas mudanças pode significar a diferença entre uma velhice saudável ou doente.

Vários centros de pesquisa em todo o mundo estão em busca de tratamentos para prevenir o envelhecimento biológico. Estudos em animais já mostraram que é possível estender dramaticamente a expectativa de vida de certas espécies.

Um medicamento comum para o tratamento de diabetes, a metformina, foi capaz de prolongar a vida útil dos roedores, por exemplo. No início da década de 1990, Cynthia Kenyon, agora vice-presidente da Calico Labs, empresa de pesquisa antienvelhecimento apoiada pelo Google, demonstrou que as lombrigas poderiam viver seis semanas em vez de três, apenas mudando uma única característica em seu código genético.

Uma das principais figuras da pesquisa de longevidade humana, Aubrey De Grey, acredita que um aumento similar na expectativa de vida pode ser alcançado em humanos. De Grey é diretor científico da Strategies for Engineered Negligible Senescence (SENS) Research Foundation, uma fundação de pesquisa em medicina regenerativa com sede na Califórnia, focada em prolongar a vida humana de forma saudável. Ele explica que seu objetivo é desenvolver um conjunto de terapias para pessoas de meia-idade e idosas, que as deixem fisicamente e mentalmente equivalentes a jovens de 30 anos. “É claro, sem apagar suas memórias”, acrescenta.

A busca pela longevidade

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Com o objetivo de curar as doenças relacionadas ao envelhecimento, o Instituto Buck, primeiro laboratório biomédico dos EUA dedicado a pesquisar sobre o assunto, acredita ser possível que pessoas os 95 anos de idade aproveitem a vida como aos 25.

“Nesses anos de pesquisa, chegamos a duas conclusões: a primeira é que podemos mudar o ritmo do envelhecimento em animais, modificando a genética e a alimentação”, diz o geneticista Gordon Lithgow, chefe de pesquisas do Instituto. “A segunda é que o processo de envelhecimento é um gatilho – ou mesmo uma causa – para as doenças crônicas associadas ao envelhecimento de forma errada – e, se conseguirmos reverter ou retardar o processo, talvez seja possível proteger o corpo dos danos causados por ele. ”

Por que envelhecemos?

De Grey argumenta que sete fatores biológicos são predominantemente responsáveis ??pelo dano celular que acompanha o envelhecimento:

  • Perda de agilidade na renovação celular;
  • Replicação incontrolável das células, como ocorre no câncer;
  • Alteração na morte celular programada, como ocorre no câncer;
  • Danos às mitocôndrias;
  • Acúmulo de resíduos dentro das células;
  • Produtos residuais que se acumulam fora das células;
  • Enrijecimento da matriz extracelular, que permite que os tecidos sejam maleáveis.

De acordo com a revista Galileu, edição de agosto/2018, De Grey acredita que basta tratar cada um desses itens para que os problemas de saúde provenientes do avanço da idade deixem de existir – quase tão simples quanto aplicar e remover um filtro do Faceapp, aplicativo que se tornou febre nas redes sociais por simular o envelhecimento dos usuários.

De Grey e sua equipe da SENS Research Foundation dizem que estão desenvolvendo terapias para combater cada um desses problemas.

“A correção para o primeiro problema (ter poucas células) é a terapia com células-tronco”, diz. Isso proporciona ao tecido um novo suprimento de células jovens para substituir aquelas que morrem durante o envelhecimento. Outras questões, como a alteração na morte celular programada, podem exigir soluções mais complexas.

Cura para o envelhecimento?

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O pesquisador não acredita que será possível curar completamente o envelhecimento através dessas abordagens, mas elas podem proporcionar aos pacientes 30 anos ou mais de vida. Ele prevê um futuro em que “tecnologias de rejuvenescimento” podem ser administradas em pessoas idosas, com a finalidade de reverter suas células para o que eram quando jovens, ganhando assim um tempo extra. A ideia é que alguém tratado aos 60 anos seja biologicamente revertido para 30. Mas, como as terapias não são permanentes, suas células atingirão novamente os 60 anos dentro de 30 anos.

Até então, De Grey espera que as terapias possam ser reaplicadas numa “versão 2.0”, para rejuvenescer os mesmos indivíduos novamente.

Já aceitamos o envelhecimento como uma consequência natural

Mas é preciso ter cautela ao lidar com afirmações como essa. Não há evidências experimentais sobre como o corpo humano responderia a esse tipo de “atualização de software”. Muito parecido com os computadores, atualizações demais poderiam sobrecarregar o organismo.

Mas o pesquisador acredita que esse tipo de pensamento, algo que ele chama de “o transe pró-envelhecimento”, está atrasando o avanço das tecnologias relacionadas. O problema, diz ele, é que culturalmente aceitamos o envelhecimento como inevitável e, portanto, as tentativas de deter seus danos são descartadas como ciência charlatã.

Vale do silício em busca do rejuvenescimento

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Instituto Buck e a fundação SENS Research Foundation não são os únicos a apostar em alternativas de tratamento para o envelhecimento. Laboratórios renomados do Vale do Silício, como a Calico e a Unity Biotechnology, têm como objetivos explícitos “resolver a morte” e “combater os efeitos do envelhecimento”. Ambos os laboratórios são financiados pelos bilionários Sergey Brin e Larry Page (fundadores do Google), Jeff Bezzos (Amazon) e Peter Thiel (Paypal).

Entre as abordagens mais promissoras para aumentar a longevidade está um procedimento popularmente chamado de “terapia de vampiro”. Em um estudo recente, pacientes com demência mostraram sinais de melhora após receberem transfusões de plasma sanguíneo de doadores mais jovens, com idades entre 18 e 30 anos. Pacientes diagnosticados com doença de Alzheimer de início precoce recuperaram a capacidade de tomar banho, se vestir, e até realizar tarefas domésticas.

Alguns estudos em animais sugerem que pode ter uma base biológica para os efeitos desses tratamentos. Em 2013, um estudo realizado por pesquisadores do Harvard Stem Cell Institute, mostrou que a força muscular de camundongos poderia ser melhorada por um fator de crescimento encontrado em sangue jovem chamado GDF11, embora as descobertas não pudessem ser replicadas.

E o planeta?

Quando questionado sobre como o planeta gerenciaria uma quantidade tão grande de pessoas, caso a longevidade fosse alcançada, De Grey respondeu:

“Se preocupações como essas paralisassem os primeiros pioneiros da vacinação e dos antibióticos, seria improvável que muitos de nós hoje pudéssemos viver muito além dos 40 anos de idade. Os avanços da medicina nos últimos dois séculos nos ensinaram que temos o poder de derrotar as doenças que nos afligem. Talvez, se nos aplicarmos, possamos vencer o envelhecimento também. ”

Fontes:

Revista Galileu Edição de agosto/2018: Em busca da vida eterna

Life Extension Advocacy Foundation: Aubrey de Grey – Clinical Trials in Five Years

Leapsmag: Anti-Aging Pioneer Aubrey de Grey – “People in Middle Age Now Have a Fair Chance”

Long long life: Transhumanism: Aubrey de Grey’s causes of aging and how to stop them

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